post

Fertilidade de Solos por um Olhar Processual

Não podemos confundir solo degradado com seu potencial produtivo; todo solo pode ser recuperado e tornar-se produtivo; adubos minerais formam uma base, um primeiro passo, mas não podem ser aplicados como adubos de rotina; estes devem ser orgânicos! quais são as qualidades dos corretivos e condicionadores minerais? Como diferenciar e escolher o melhor em cada situação? Veja a seguir.

 

 

O solo é ou está fértil?

É importante saber diferenciar se um solo é ou está fértil. A sutil diferença entre ser e estar nesse caso tem consequências bem práticas. Pois todo solo tem dois históricos. Um recente e cultural, que envolve seu manejo pelo homem e uso agrícola. E o outro se refere a seu histórico milenar, ou seja, sua gênese e evolução natural.

Por esse último, pode-se formar um solo raso ou profundo, jovem ou velho, rico ou pobre em reservas minerais, úmido ou seco e um sem número de características que definem o solo tal como ele é pela sua própria evolução natural, fala-se, portanto em características condicionantes.

Já a condição de como o solo está pelo histórico do seu manejo agrícola envolve características que podem ser melhoradas. O solo está erodido ou não? Foi até “decapitado”, perdendo a camada fértil superficial? Está compactado? Qual seu atual teor de matéria orgânica? A atividade biológica está inibida pelo uso de agrotóxicos? Há excesso de algum nutriente ou falta de outros? Qual foi a adubação mineral aplicada? Há falta induzida de micronutrientes ou carência constitucional? Alguma inibição da atividade das micorrizas? A relação Ca / Mg está desbalanceada? Essas e outras são condições culturais do solo que definem como o solo está devido a erros e acertos do manejo anterior.

Todo solo pode se tornar fértil

A boa notícia é a seguinte: todo solo pode tornar-se fértil se for feito um bom manejo orgânico. Mas não se pode falar de manejo sem examinar a ação específica de cada adubo orgânico. Faremos tudo isto na parte IV que trata dos métodos de fertilidade.

O manejo orgânico de solos muitas vezes demora a mostrar seus resultados. Não é raro um solo levar de 8 a 10 anos para render todo seu potencial. Os maiores ganhos acontecem entre o segundo e o sexto ano após a conversão. O início frequentemente é difícil e no final os ganhos são menores, mais qualitativos que quantitativos.

Fertilidade autóctone

Podemos criar fertilidade sem adicionar nada “de fora”? Será mesmo possível? Minha resposta sincera é sim, parcialmente e na maioria dos casos. Podemos sim ampliar a fertilidade física de um solo, solubilizar nutrientes já existentes (porém indisponíveis), a partir da atividade biológica, a partir da atividade das plantas, de suas raízes e da biota do solo. Em solos velhos e muito intemperizados, no entanto, não logramos o enriquecimento em determinados nutrientes sem recorrer a uma fonte externa. Este é o caso quando aplicamos calcário, fosfato de rocha, pó de basalto ou outra rocha ígnea como corretivo ou condicionante do solo.

A luz do sol vem de fora da propriedade e é assimilada pelas plantas que a repassam a uma extensa teia alimentar. Uma vez assimilada pelas plantas, permite a alimentação de toda biota do solo. Todo adubo orgânico é formado por biomassa, que em última análise, provém das plantas e tem origem na fotossíntese. As leguminosas, ao fixarem o nitrogênio atmosférico em seus nódulos de rizobium, estão introduzindo esse elemento no solo a partir do ar, que é um bem comum. Por estes dois exemplos, percebe-se que o solo é um sistema aberto, enriquecido constantemente por elementos extra-solo.

Outro exemplo é o nutriente fósforo, disponibilizado pelo acréscimo de atividade biológica. O mesmo poderá ocorrer com potássio e sódio contidos na fração silte, ou mesmo com cálcio, magnésio e micronutrientes, resgatados de camadas mais profundas pelo sistema radicular dos adubos verdes.

Portanto, a afirmação sobre a suficiência do solo ficaria mais correta assim: podemos sim manejar um solo com adubos orgânicos gerados na propriedade, dependendo minimamente de adubos adquiridos fora da propriedade.

No caso do potássio, o mais fugidio dos nutrientes essenciais (juntamente com o sódio) – a necessidade por suplementação externa é frequente. Para culturas perenes extensivas, como pastagens e florestas, a mobilização e a ciclagem do potássio e do sódio, em constante movimento pela água do solo, pode ser suficiente. Para as demais culturas, principalmente aquelas de manejo intensivo, como cereais e hortaliças, mas também para frutíferas, cana-de-açúcar e em alguns casos o café, o potássio (e o sódio) torna-se fator limitante se não puder ser adicionado nos momentos de pico de demanda, pela sua insuficiente permanência no sistema solo, mesmo quando o manejo for dos melhores. Trata-se de uma deficiência natural crônica dos solos sob clima tropical chuvoso.

O conceito de solo deficiente é muito importante para evitar expectativas desmedidas e frustrações desnecessárias. Solos deficientes geneticamente são aqueles já caracterizados como velhos ou senis. Esses são típicos no trópico e subtrópico, seja pelo alto grau de intemperismo sofrido (latossolos, oxissolos altamente intemperizados), ou pela natureza arenosa da rocha mãe, formando podzólicos areia/areia, areias quartzosas e latossolos arenosos álicos.

Nesses solos simplesmente não há reservas naturais de nutrientes, portanto a atividade biológica não tem o que mobilizar. Para corrigir tal deficiência, é importantíssimo inserir rochas moídas calcárias, fosfatadas e silicatadas (ígneas), com grande variedade de nutrientes, ou seja, praticar a rochagem para suprir deficiências genéticas do solo.

Correção de solos deficientes não é adubação

Há uma variedade de materiais adequados à correção das deficiências minerais dos solos. Sua ação é complementar à ação dos adubos orgânicos de rotina. Sendo ainda muito diferenciada, conforme a natureza do material.

A maioria é constituída por rochas moídas e peneiradas, que eu não considero adubos, mas corretivos e condicionantes. Trata-se de materiais de aplicação rara, não-rotineira, aptos a propiciar fertilidade somente se forem inseridos na rotina de adubações orgânicas. São aplicados de 5/5, 10/10 ou até 50/50 anos e somente quando as adubações orgânicas forem insuficientes. Poderão levar o solo a um novo patamar, multiplicando a ação dos adubos orgânicos e melhorando ainda mais a fitossanidade. Sua ação pode ser entendida como um enriquecimento lento e gradual dos primeiros horizontes de um solo com elementos favoráveis à biota do solo e ao crescimento vegetal. Na tabela abaixo, uma caracterização dos principais grupos:

CorretivosConstituiçãoSolubilidadeRiqueza de nutrientesDosagens frequentes

Cinzas Essencialmente sais Muito alta É alta, inclui micronutrientes, destacando-se K, Si, Na, Ca, Mg e P. 20 a 80 Kg / ha
2 a 4 vezes por ano; quantia se ajusta à produtividade.
140″>Gesso 163″>Essencialmente sulfatos Alta Baixa, contém Ca e S.
Calcário Essencialmente carbonatos Média, bastando de 2 a 4 meses para apresentar grande resultado. Baixa, contribui apenas com Ca e Mg, sendo assim unilateral. Seguir recomendação pela análise química; aplicar eventualmente 40 a 70 % da quantia recomendada, para manejar o solo em pH mais baixo.
Fosfato rocha natural Essencialmente fosfatos Média a baixa, melhora com pH baixo e adubos orgânicos. P, Ca, Mg e diversos micronutrientes. Entre 150 e 600 Kg/ha, conforme recomendação.
Pós de rochas ígneas (basalto/ diabásio, granito/ gnaisse) Essencialmente silicatos Muito baixa, melhora somente com alta atividade biológica. É alta, todos macro e micronutrientes (exceto N e S) + elementos úteis. Os mais completos. 7 ton/ ha ou mais (não há toxicidade).

Observações:
• Sequência em ordem decrescente de solubilidade.

• Gesso e calcário contribuem com poucos elementos, demandando, por esse motivo, o complemento de outros materiais mais ricos e variados. No entanto, agem com relativa rapidez, corrigindo o pH do solo, sendo por isso considerados corretivos.

• O grupo dos fosfatos de rocha apresenta uma riqueza maior, aliada a uma solubilidade suficientemente alta para correções de médio prazo. Trata-se de um adubo corretivo de solos.

• Apenas as cinzas e os pós de rocha ígnea apresentam uma grande riqueza de nutrientes.

• Nas cinzas a solubilidade é altíssima, pois elas se compõem de sais. Sua ação é rápida e passageira, porém com ênfase na finalização dos processos fisiológicos, geram assim fitossanidade e amparam a frutificação.

• Nos pós de rocha ígnea a solubilidade é mínima, mas aumenta conforme o aumento da atividade biológica. Será tanto maior quanto mais fina for sua granulometria, o que multiplica sua superfície específica, a área de interação com a microflora. Também deve ser bastante misturado com o solo, o que justifica 2 a 3 arações/gradagens.

Conclusão: Percebe-se que a primeira solução para reequilibrar solos desmineralizados é a adição de cinzas. Sua maior qualidade está na ausência de nitrogênio. Assim elas rapidamente equilibram a fisiologia das plantas e promovem seu conforto fisiológico, melhorando a produção e equilibrando a fitossanidade (saúde).

Autor: Eng. Agr. Manfred v. Osterroht (RdA)