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A Bananeira como Adubo Verde

Normalmente adubações verdes são feitas com plantas anuais, mas a bananeira produz excelente biomassa, pobre em nitrogênio e fósforo, mas rica em potássio, sódio e micronutrientes e portanto equilibradora trofobiótica, promotora de fitossanidade; sua melhor aplicação ocorre em hortas e pomares; a bananeira também pode ser utilizada para manejar o microclima e gerar conforto fisiológico.

Introdução
Pode parecer estranho sugerir que uma planta frutífera assuma o papel de adubo verde. Não seria o contrário: as frutíferas usufruindo da fertilidade gerada por adubos verdes?

Ocorre que a bananeira é uma planta muito produtiva e versátil e se destaca por apresentar um enorme vigor vegetativo. É ao mesmo tempo árvore, arbusto e herbácea (não-lenhosa). Seu caule é subterrâneo, e o que se parece com o tronco é um pseudocaule formado pelo adensamento de todas as bainhas foliares. E que belas folhas! Além de grandes, são também palatáveis, sendo apreciadas por suínos, bovinos, caprinos e muitos outros herbívoros.

Aplicações agrícolas da bananeira

Em muitos sistemas a bananeira é uma planta chave, principalmente nos sistemas agroflorestais. Em outros, assume a função de ‘árvore’ sombreadora ou criadora (café, manga, entre outras perenes). É também plantada para minimizar os efeitos nocivos de geadas no café. Além disso, é posicionada como quebra-vento para proteger hortaliças. Mesmo com tantas aplicações, seu potencial como árvore adubadora ainda é injustamente subestimado. Compare as quantidades de biomassa da bananeira com adubos verdes tradicionais:

Espécie Aveia preta Girassol Crotalária Bananeira
Massa verde (ton/há) 30 – 60 40 – 50 50 – 80 50 – 90

Percebe-se que a bananeira não fica atrás de outros adubos verdes em produção de massa verde (quantidade). Mas ainda temos que avaliar a qualidade da biomassa fornecida. Como próximo passo é preciso avaliar experiências bem-sucedidas na perenização de um bananal.

Potencial fertilizador da bananeira

A bananeira é uma cultura exigente em fertilidade de solos. Tanto que em bananicultura convencional se prefere solos virgens após desmatamento e se recomenda a renovação do bananal de 5/5, 8/8, no máximo de 10/10 anos. Que a bananeira pode, inserida em determinado sistema, ser ao menos co-geradora de fertilidade, normalmente não é concebido. Exemplo desta capacidade de se tornar perene mantendo o potencial produtivo encontra-se no relato feito por Bertoni, em 1926, e editado pelo Ministério da Agricultura do Paraguay em 1954, sobre um bananal implantado no início do século 17. Bananal esse perene por 300 anos e que o levou a desenvolver um sistema semelhante e altamente sustentável (a íntegra deste relato encontra-se no livro “O Solo como Órgão Vivo”).

Algumas propriedades da fitomassa da bananeira (qualidade)

Com relação à qualidade, percebemos imediatamente se tratar de uma fitomassa não-lignificada, com teor relativamente baixo de proteínas. Isso qualifica a biomassa para uma ação trofobiótica. Veja a seguir quadro com os principais elementos extraídos pela bananeira:

Quantidade de Elementos Removidos por Hectare, Cultivar “Nanicão” no Corte.

Elemento Fruto + Engaço No resto da planta Total % Exportada pelo Fruto.
N(kg)
P(kg)
K(kg)
Na(kg)
Ca(kg)
Mg(kg)
S(kg)
B(g)
Cl(g)
Cu(g)
Fe(g)
Mn(g)
Mo(g)
Zn(g)
Al(g)
148
20
633
1.662
21
22
5
165
87.000
69
707
813
0,3
139
620
116
12
428
2.542
138
41
6
282
212.000
51
2.340
6.033
1,0
218
2.196
264
32
1.053
4.204
159
63
11
367
299.00
120
3.055
6.846
1,3
357
2.816
56
63
60
40
13
35
45
43
29
58
23
12
23
39
22

FONTE: Gallo et al (1972).

A tabela nos revela uma significativa quantia de K (potássio) que a bananeira mobiliza em sua rizosfera, para depois reciclar. De modo semelhante chama-nos atenção a quantia extraída de Na (sódio) e Cl (cloro). Tais teores se tornam particularmente interessantes quando precisamos do K e do Na como ‘freio trofobiótico’: contenção da absorção de N (particularmente o NH4) e aumento da resistência sistêmica na cultura adubada.

Pode-se compreender melhor a relação vantajosa da bananeira com solos originários de granito-gnaisse (complexo cristalino, serras do mar, serras e planaltos costeirão, Mantiqueira, sul de minas, zona da mata mineira) que liberam exatamente estes nutrientes requeridos em generosas proporções.

Por essas constatações a bananeira revela seu potencial adubador. Sua biomassa, quando cobre o solo, traz um incremento de fertilidade biológica, física e química. A implantação de um bananal inteiro é mais custosa que uma adubação verde e até mesmo um coquetel, podendo levantar questões de ordem econômica. Mas a relação custo/benefício melhora e muito se pensarmos num plantio em faixas ao redor das lavouras e na exploração do potencial produtivo e agroambiental da bananeira ao longo de vários ciclos. Neste caso, o custo/benefício é mui favorável!

Bananeira como quebra-vento

Nessa modalidade, planta-se as bananeiras em renques densos, eventualmente duplos, nas bordas da plantação, obtendo-se considerável efeito quebra-vento pela alta densidade das touceiras. Em hortaliças, são plantadas ao longo das curvas de nível e beirando as vias. Formam assim uma rede capaz de quebrar o vento e converter os resíduos de outras adubações em nova fitomassa. Biomassa essa que poderá voltar ao solo via cobertura morta (mulching) ou incorporada ao solo superficial como compostagem laminar. Pode haver ainda um ganho em produtividade e fitosanidade pelo efeito quebra-vento. Nas hortaliças, ou qualquer outra cultura herbácea, quanto maior o tempo de abertura dos estômatos, maior atividade fotossintética. Eis como a bananeira leva a resultados positivos com ampla sustentabilidade.

art_bananeira

A bananeira como planta criadora

Quando da implantação de um pomar ou cafezal, a bananeira pode assumir o papel de planta criadora e desempenhar várias funções ao mesmo tempo, tais como:

• Fornecer sombra parcial à cultura recém plantada.
• Fornecer biomassa para proteção e fertilização do solo, isto é, uma cobertura morta de alta qualidade.
• Multiplicar a fertilidade existente pelo seu sistema radicular e o eficiente sombreamento na estação de intensa insolação.

Para exercer essas funções, o bananal tem que ser intercalado com a cultura beneficiada, consórcio que normalmente gera mútuos benefícios. Os espaçamentos utilizados variam de acordo com a situação, em função da arquitetura das plantas, das particularidades climáticas e do relevo local. Um exemplo desse sistema são os pomares de manga implantados com ajuda da bananeira, conforme figura.

BananaIntercalada cores